EMILIO-KUNZ-NETO_7Era uma manhã de sol, o pai estava no trabalho e a mãe estava distraída com alguma outra coisa. Aproveitei para pegar uma garrafa de cachaça e um pote de vidro onde mãe guardava os doces e compotas que fazia em casa. Colhi sementes de salsa na horta e misturei tudo. Enterrei o pote bem fechado no pátio de casa por razões técnicas e políticas. A temperatura constantemente mais baixa e a ausência de sol permitiriam que a maceração extraísse os aromas da maneira mais natural. Por outro lado, nem o pai, nem a mãe descobriam.

Eu tinha 12 anos de idade e essa foi a minha primeira incursão no mundo das bebidas.

Eu queria ser como o vô Emílio, que à época era um enólogo viajante. Ao contrário dos flying winemakers de hoje, ele voava apenas com seus sonhos, numa camionete Ford Williams, com um laboratório portátil e produtos químicos necessários para análises dos vinhos de seus clientes e preparações para o tratamento de seus vinhedos. Até chegar a Flores da Cunha com a sua camionete, no entanto, foi uma longa história. Uma história tão longa que começou muito antes dele. Uma história que começou ainda na Alemanha, em 1846.

O meu trisavô, Johann Philipp nasceu no pequeno vilarejo de Bierkenfield, Prússia, em 1835. Numa época em que a Alemanha nem mesmo existia como país. Cresceu, aprendendo o ofício de seu pai, Johann, o artesanato em madeira. Na sua juventude, especializou-se em artigos de transporte: peças de selaria e carroças. A época do início de sua idade adulta era um período de conflitos permanentes naquela parte da Europa, sendo mais provável que os jovens morressem em guerra que prosperassem com suas profissões: decidiu deixar a sua cidade e embarcou para uma terra de sonhos exuberantes e fixou residência no Hamburgo Velho, hoje, Novo Hamburgo (RS).

Nicolau Júlio Kunz, meu bisavô, deu sequência aos negócios da família, incluindo a produção de bebidas, que era feita de maneira muito caseira antes dele. Na sua casa de negócios, produzia e comercializava formas para sapatos e peças de montaria (ferraduras, arreios e serigotes). Além disso, tinha sua própria marca de café (Café JK) e algumas bebidas, entre as quais se destacava o Creme de Moka Júlio Kunz. Artesão e artista, foi o primeiro regente do Coral da Sociedade Aliança, que hoje, em sua memória, é chamado de Coro Júlio Kunz. Teve muitos filhos talentosos: Júlio, goleiro da Seleção Brasileira; Oscar, grande empresário no setor calçadista; Elza, pianista; Vitor Hugo, produtor de charutos; Luiz Felipe, que deu seguimento ao negócio de destilados; e meu, avô, Emílio.

EMILIO-KUNZ-1930O vô Emílio era um sujeito do qual as pessoas gostavam de estar perto: tocava rabecão, dançava tango floreado, extremamente culto, divertido e apreciava boas conversas e bons vinhos. A sua história é bastante curiosa. Aos 17 anos, teve tuberculose e perdeu um de seus pulmões, era asmático e sofria de sopro no coração. Quando tinha vinte e poucos anos, apaixonou-se pela filha de um médico e pediu-a em casamento. Muito prudente, o pai da moça negou e recomendou que ele se mudasse à Serra Gaúcha, onde o ar é mais puro, para viver os poucos anos que teria pela frente. Acho que aquele médico tinha razão, mal o vô tinha completado 75 anos e largou o cigarro para fumar só charutos, pois, segundo ele “o cigarro começou a fazer mal”. Aos 86 anos, faleceu por complicações de uma pneumonia.

Sorte da vó Angelina que o conheceu em Gramado (RS), montado num cavalo branco, como ela sonhava conhecer o homem com o qual casaria. Já casados, o vô Emílio fundou a Vinícola Petronius, dedicada exclusivamente à elaboração de destilados de qualidade e vinhos finos, já na década de 1930. Desde aquela época, o vô Emílio sabia que a Merlot seria uma das uvas emblemáticas da Serra Gaúcha e conhecia como poucos o potencial de uvas redescobertas há poucos anos, como a Barbera. Na mesma casa em que se elaboravam whisky (que o vô pronunciava “vísqui”, com o seu forte sotaque alemão), bitter e vinhos; naquela casa que servia de moldura para lanches da tarde regados a moscatel Petronius harmonizados com bolos preparados pela vó Angelina, com a presença dos governadores do estado; n aquela mesma casa que hospedava Érico Veríssimo em algumas visitas à Serra Gaúcha, nasceu meu pai, Eloy.

Um século depois de Johann Philipp deixar a Europa para fugir da guerra, meu pai servia no tiro de guerra, preparando-se para lutar contra os nazistas na segunda guerra mundial. Com apenas 17 anos, fora convocado para lutar, sendo treinado para a confecção de explosivos. Por sorte, a guerra terminou antes que ele embarcasse. Ele ainda teve que cumprir o serviço obrigatório depois disso, mas já em tempos de paz. Além da patente de 1º sargento, o seu período de serviço militar o ajudou a compreender um pouco de química, fundamental para o desenvolvimento de whiskies e licores com os quais trabalhou todo o resto de sua vida. Ainda trabalhou com o seu tio, Luiz Felipe, nas Bebidas Marumby S/A, em Caxias do Sul, onde ganhou valiosa experiência na produção de bebidas. Só então se mudou a Flores da Cunha, onde construiu seus sonhos mais bonitos.

Mais do que química, o pai entendia de pessoas. Ele tinha uma capacidade de uni-las em torno de ideias e de projetos como poucos. Mal chegou a Flores da Cunha e montou a sua primeira empresa, a Kunz, Muraro & Cia. Ltda, em sociedade com Claudino. Após algum tempo, a sociedade foi desfeita e fundou a E. Kunz & Cia. Ltda., em 1958. Além de uma série de bebidas reconhecidas pelo grande sucesso, tais como o Whisky Cockland, o Sang’galo Bitter, o Rum Lacombe e os Licores Kunz, o pai tinha uma visão sobre o turismo que antecipou em décadas os movimentos enoturísticos contemporâneos na Serra Gaúcha. Reescreveu a História do Galo, transformando Flores da Cunha em referência para o turismo brasileiro, ao ser conhecida como A Terra do Galo. Lá fundou a Pousada do Galo Vermelho, que ainda habita a memória de muitas pessoas que tiveram a oportunidade de apreciar a sua estrutura.

Eu mesmo nasci em Flores da Cunha, nasci praticamente dentro de um barril de whisky. Depois das minhas experiências caseiras, como a que contei no início, aprendi a fazer as primeiras análises químicas no laboratório da E. Kunz, onde o vô Emílio fazia as análises dos vinhos de seus clientes. Com o pai, aprendi o dinamismo do negócio de produção de bebidas e de gastronomia, dividindo os meus primeiros anos de trabalho entre a produção de bebidas e o hotel. Durante a década de 1980 fundei a minha primeira empresa, juntamente com meu irmão, Júlio. Atuamos por mais de quinze anos na produção e distribuição de bebidas em Caxias do Sul. Depois disso, fui convidado a participar da sociedade da Fante Indústria de Bebidas Ltda., sucessora da E. Kunz, onde tive a oportunidade desenvolver grandes produtos, tais como a Vodka Rajska, o Dushy Fest Não-alcóolico e os sucos de uva Quinta do Morgado.

_DSC2001Hoje, trabalho em mais um sonho. Juntamente com meus filhos, Augusto e Júlio César, fundei a Petronius Beverages by Authors, uma empresa dedicada exclusivamente à elaboração de bebidas premium, para resgatar e contar as inúmeras histórias que a nossa família viveu no Brasil desde 1846.

Sejam bem-vindos à nossas receitas e às nossas histórias!

Saúde!

assEmilio